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Na 2.ª conferência da Associação Portuguesa dos Médicos de Clínica Geral (APMCG), falou-se sobre as políticas de organização e prestação de cuidados de saúde primários em diferentes países europeus. Contando com o apoio da Fundação AstraZeneca, a iniciativa decorreu a 25 de Junho, no Hotel Cascais Miragem.
Partilhar as formas de organização dos cuidados de saúde primários de países como a Holanda, a Dinamarca, o Reino Unido e a França foi o objectivo principal da conferência «Organização da Prestação de Cuidados», integrada num ciclo de quatro conferências que assinalam o 25.º aniversário da APMCG.
«As diferenças entre países podem ser vistas como um problema, mas também como uma força, se aprendermos com o melhor de cada um», frisou a Prof.ª Tina Eriksson, da Unidade de Investigação em Medicina Geral e Familiar da University of Southern Denmark.
Sendo a Medicina Geral e Familiar (MGF) «a especialidade mais próxima da população e, por isso, a que mais sente o impacto das necessidades do sistema», a Prof. ª Isabel Santos, professora de MGF na Faculdade de Ciências Médicas de Lisboa e comentadora nesta conferência, salientou a falta de «equipas multidisciplinares». Uma reacção aos dados divulgados pelos representantes dos quatro países, onde não se sente a mesma falta de enfermeiros e outros profissionais no apoio ao médico de MGF.
O Prof. Gilles Dussault, director da Unidade de Sistemas de Saúde do Instituto de Higiene e Medicina Tropical, em Lisboa, acrescentou a necessidade de rentabilizar os recursos, fazendo uso das tecnologias de comunicação e informação (TIC), como o telefone e a Internet, poupando deslocações. Por outro lado, defendeu a adopção paralela de uma política que inclua a avaliação das prestações de cuidados, embutida numa cultura de qualidade.
Esta mudança cultural foi também destacada pela Prof.ª Isabel Santos no decorrer do encontro. «O sistema de saúde é determinado pela cultura de um povo», referiu, sublinhando que, em Portugal, a vertente cultural tem de ser mais valorizada, em prol de maior controlo, confiança e transparência.
«A nossa governação é muito hierárquica e daí decorrem vários problemas, entre os quais uma cultura de desconfiança», sustentou esta especialista, apontando a falta de avaliação e monitorização como uma das falhas do Sistema Nacional de Saúde.
Portugal está bem, mas pode melhorar
A Prof.ª Isabel Santos considerou a organização dos cuidados de saúde como «a nossa maior falha». E exemplificou: «Se amanhã quiser ter acesso a uma listagem dos dados clínicos dos meus doentes diabéticos, não posso, porque não a tenho e não sei a quem hei-de pedir.»
Dando o exemplo dinamarquês, a Prof.ª Tina Eriksson mostrou que, no seu país, este obstáculo não existe, devido ao desenvolvimento do sistema informático, que, apesar de tornar o homem mais dependente da máquina, permite maior rapidez e eficiência no dia-a-dia de um clínico geral.
Em representação da Holanda, o Prof. Lex Goudswaard, especialista de MGF em Utrecht, apresentou as 130 guidelines desenvolvidas no Dutch College of General Practitioners (onde estão inscritos 95% dos profissionais de MGF do país). Estas recomendações visam o correcto funcionamento do sistema na área dos cuidados de saúde primários.
No Reino Unido, segundo afirmou o Prof. Philip Evans, ex-presidente da WONCA (World Organization of Family Doctors) Europa, a criação de um banco de dados clínicos tem gerado alguma controvérsia. Isto porque «os britânicos temem o desrespeito pela privacidade das suas informações pessoais e que estas possam ser utilizadas para fins extra-clínicos».
Por sua vez, o Prof. José Gomes, professor de MGF na Faculté de Médecine et de Pharmacie da Université de Poitiers, salientou a preparação da lei Patients, Santé, Territoire (Doentes, Saúde, Território) em França, que prevê o incremento da comunicação entre instituições e profissionais de saúde. Uma medida que enfatiza a importância da partilha de conhecimentos, como aconteceu neste encontro.
Fazendo o balanço entre as falhas e os pontos positivos, a Prof.ª Isabel Santos não quis deixar dúvidas: «Em Portugal, temos cuidados que não existem em todos os países. Com os recursos e a capacidade de que dispomos, podemos prestar uma enorme amplitude de cuidados de saúde.»
Esta médica considerou que o Sistema Nacional de Saúde tem «excelentes» condições e ressalvou os avanços dos últimos 40 anos: a cobertura dos serviços de saúde passou dos 18% para os 100% e a mortalidade infantil desceu de 77% para 5,5%.
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